Por: Pr. Jurandir Pereira Gomes
Introdução
Está preparada a mesa para os convidados. Treze pratos sobre a toalha branca de franjas vermelhas, que tocam o pavimento ladrilhado; treze taças de metal que cintilam aos reflexos dos lampadários suspensos no teto; treze assentos de pano estofados, amplos como leitos, segundo o costume oriental. No alto estrado ao fundo, acham-se os cântaros de vinho, os potes de mel, os cestos de pães ázimos. A um canto, sobre móvel baixo, ergue-se um jarro de prata, emergindo de uma bacia de prata.
A luz azulada e cinzenta do crepúsculo penetra pela clarabóia, misturando-se com a claridade amarela dos candeeiros. E tudo é envolvido e penetrado pelo silencio melancólico do anoitecer.
Levemente, estala um rumor. Alguém abre a porta da casa. Ouvem-se vozes; elas aumentam. Há um ruído de muitos passos que sobem os degraus da pequena escada interior.
Jesus e os doze entram na sala, acompanhadas por um homem que dá explicações a Pedro, mostrando os preparativos e retirando-se imperceptivelmente.
O Dialogo da Ceia
Pedro – (voltando-se para o Mestre) – Senhor, eis que tudo se acha preparado, conforme determinaste.
Jesus – Festejemos a Páscoa, a minha última Páscoa.
João – Bem o sentimos, Mestre; nunca estivemos tão tristes.
Jesus – E, no entanto, deveríamos nos alegrar.
(Sentam-se à mesa. À direita e à esquerda do Mestre, João e Tiago. Entre João e Pedro, está Judas. Os outros se colocam nos lugares restantes. Um servo entra coma ânfora em que traz a mistura de vinho, mel e plantas aromáticas) Todos se servem, dizendo: – Bendito seja Deus, que nos tirou da terra do Egito!
(Outro servo traz o cordeiro pascal).
Jesus – Na verdade vos digo que esta cerimônia é a última. De agora em diante não se imolará mais um cordeiro, filho de cordeiro, porque o Cordeiro de Deus será imolado.
Judas – Não se cumprirá mais a lei de Moisés?
Jesus – Não há lei de Moisés, porém o que existe é a lei de Deus.
Judas – A lei de Deus não é uma só?
Jesus – Deus é Deus de vivos e não de mortos. A lei dos vivos é viva e não morta. Eu sou a lei viva.
Judas (entre os dentes) – Se Caifás ouvisse estas palavras!
Jesus – Daqui a pouco vos explicarei todas as coisas.
Tomé – Cumpre que nos esclareçamos de tudo.
Simão, o Zelote – Não sabemos até quando poderemos estar juntos do Mestre.
Natanael – Ando cheio de pressentimentos. Hoje à tarde, notei que éramos seguidos.
Filipe – Também eu.
André – A cidade está cheia de soldados de Pilatos.
Mateus – Pela manhã, reuniu-se o Sinédrio.
Jesus – Nada temais. Nada vos acontecerá, por agora.
João – Pensamos em ti, Mestre.
Jesus – É preciso que se cumpram os profetas
(Os servos trazem a ânfora de vinho puro e os pães ázimos. O Mestre levanta-se).
João – Aonde vais, Mestre?
Jesus (tirando o manto e colocando-o sobre a sua cadeira – Vou fazer o que me cumpre.
(Adianta-se para o local onde estão a bacia e o jarro. Cinge-se com a toalha. Toma o jarro e a bacia e aproxima-se de Pedro).
Pedro – Que vais fazer, Senhor?!
Jesus – Cumpre-me lavar os pés a todos!
Pedro (afastando-se) – Não! Nunca!
Jesus – O que eu faço não compreendes agora, mas compreenderás depois.
Pedro – Nunca permitirei que me laves os pés!
Jesus – Se eu te não lavar, não terás parte comigo.
Pedro – Oh! É demais! Quem sou eu para que te ajoelhes, como um servo, e laves meus pés? Mas tu dizes que não terei parte contigo se não consentir. Eis-me, pois Senhor! Lava-me os pés. Quero ter parte contigo! Lava-me também as mãos e cabeça!
Jesus – Aquele que já está lavado, não necessita senão de lavar os pés, que estão cheios de poeira dos caminhos. Em tudo o mais estás limpo. (Voltando-se para os Doze) Vós estais limpos, mas não todos.
Tomé (para Judas) – Qual de nós não estará limpo?
Judas – Algum de nós não está limpo.
Jesus (continuando a lavar os pés dos discípulos) – O maior deverá ser o menor.
João – Assim o disseste, quando te pedi o melhor lugar no Reino.
Jesus – (chegando a vez de Judas) – Estende-me os pés, Judas.
Judas (trêmulo) – Um chefe não deve proceder assim…
Jesus – Ser chefe é ser servo.
Judas – Devias tratar-nos com mais rigor!
Jesus – Ser rigoroso para muitos é tornar-se servo de alguns poucos; o servo de todos é mais livre do que o servo de poucos.
Judas – basta, Mestre; já estou lavado. Afligi-me ver-te ajoelhado diante de mim!
Jesus (enxugando os pés de Judas) – Sê humilde Judas; aceita sem orgulho.
(O Mestre deixa a bacia, o jarro e a toalha num canto da sala. Pedro despeja-lhe água nas mãos e depois estende a toalha para que o Mestre se enxugue. Jesus veste novamente o manto e volta para o seu lugar).
João – Nós vos amamos, Mestre!
Pedro – Ninguém é como tu, Senhor!
Jesus – Entendeis o que vos tenho feito?
Os outros – Explica-nos Mestre!
Jesus – Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis lavar também os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo para que o sigais. Na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou. Se, pois, assim procedo, procedei vós, mostrando-vos humildes e benevolentes, até mesmo para com aqueles que vos querem mal; e assim fazendo sereis bem-aventurados.
Pedro – Ouvi, amigos, seremos todos bem-aventurados!
Jesus – Nem todos.
Judas – Nem todos, ouvistes?
Tiago – Por que nem todos, Mestre?
Jesus – Para que se cumpra a Escritura quando diz: “O que come o pão comigo, levantou contra mim o seu calcanhar”. E desde já vo-lo digo, antes que aconteça, a fim de que, acontecendo, acrediteis quem sou.
Judas (cochichando, olhando a todos) – Serei denunciado à face dos demais? (Mexendo-se inquieto) – Mestre, falavas a pouco dos enviados… Volta a falar-nos sobre eles…
Jesus – Se alguém receber o que eu enviar, me recebe a mim e quem me recebe a mim recebe Aquele que me enviou.
Pedro – Mestre, falaste há pouco em alguém que levantará contra ti a planta do pé…
Judas – Importunas o Mestre! Que mais queres saber? Mestre, fala-nos antes do Reino…
Jesus (com voz forte, que enregela a todos os convidados) – Na verdade, na verdade vos digo que um de vós me há de me trair!
Pedro – Quem é esse, Senhor?
Tiago – Quem é?
Filipe, Natanael e Tadeu – Dize-nos, Senhor!
Tomé – Não posso compreender! Só mesmo vendo!
Mateus – Tudo é possível!
Simão, o Zelote – Maldito o traidor!
João – Fala, Mestre!
Os outros – Precisamos saber! Quem é, Mestre?
Pedro (ao ouvido de João) – Tu, que estás perto do Mestre, pergunta-lhe em particular e conta-me depois.
João (ao ouvido de Jesus) – Senhor, quem é?
Jesus – É aquele a quem eu der o pedaço de pão molhado (Toma um pedaço de pão, molha-o no guisado) Judas filho de Simão, come!
João e Pedro (que trocaram rápidas palavras) – Oh!
Judas (comendo o pedaço de pão) – Sinto a boca amarga! Este pedaço de pão tem gosto de sangue!
Pedro – Dizes bem: o que dá gosto ao pão é a boca. O mau paladar faz o mau pão.
André – Estás perdido, Judas.
Judas – O que pôs o Mestre no pão?
Jesus – Que puseste, Judas na tua alma?
Mateus – Que pôs a tua alma na tua boca?
Judas – A noite avança…
Jesus (ouvindo-o) – O que tens a fazer, faze-o depressa, Judas.
Judas (levantando-se) – Amigos, tenho que fazer. (A Jesus) Mestre, eu…
Jesus – Vai Judas! (Judas retira-se).
(No silencio cheio de constrangimento, os discípulos se entreolham, fitam o Mestre e fitam a cadeira vazia de Judas).
Pedro (contemplando o lugar vazio de Judas) – Aquela cadeira vazia…
João – Por que nos entristece aquela cadeira vazia?
André – Ora! Em todas as reuniões existem cadeiras vazias!
João – As cadeiras da Ausência ou da Deserção… As que choram pelos que não quiseram vir e as que se envergonham pelos que não souberam ficar…
Simão, o Zelote – Haverá sempre substitutos para aquecer as cadeiras frias!
Jesus – Os lugares vazios pertencem aos seus próprios donos. O pastor aguarda sempre a ovelha perdida e o pai está sempre à espera do filho prófugo. Infinita é a misericórdia de Deus e só não a compreende a impenitência, que endurece os corações.
Pedro – Que terá ido fazer Judas de Cariot?
João – Nós estaremos sempre contigo Mestre!
Jesus – Meus filhos, ainda por um pouco estou convosco. Vós me buscareis, porém como disse aos judeus; digo-vos agora: não podereis ir aonde irei.
Pedro – Senhor, quanto isso nos dói!
João – Como sofremos, Mestre!
Os outros – Para onde irás, Senhor?
Jesus – Um novo mandamento vos dou…
Os discípulos – Um novo mandamento?
Jesus – Amai-vos uns aos outros como vos tenho amado. Será nisso que vos reconhecerão como meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.
Tiago – E será esse, apenas, o sinal pelo qual seremos reconhecidos?
Jesus – Apenas, É o sinal profundo, o grande, o único sinal.
Mateus – E a lei? E a vossa doutrina?
Jesus – É nesse novo mandamento que vive a lei, por que ele resume toda a doutrina do Evangelho. Praticai-o, desde já e, praticando-o quando eu me for, sentireis a minha presença…
Pedro – Senhor, mas para onde vais?
Jesus – Para onde vou, não podes agora seguir-me; mas depois me seguirás.
Pedro – Por que não posso seguir-te agora? Por ti darei minha vida!
Jesus – Tu darás a vida por mim?
Pedro – Nem há dúvida!
Jesus – Simão, Simão! Eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo;mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu quando te converteres, converte os teus irmãos!
Pedro – Senhor, estou pronto a ir contigo até à prisão e até à morte.
Jesus – Digo-te, Pedro, que não cantará o galo esta noite, sem que tu negues que me conheces!
Os Discípulos – Pedro! Pedro!
Jesus – Não se turbe o vosso coração. Crede em Deus; crede em mim. Eu irei, mas voltarei, e a todos levarei comigo para que estejais onde eu estiver. Vós bem o sabeis para onde vou e conheceis o caminho.
Tomé – Senhor, nós não sabemos para onde vais; como poderemos conhecer o caminho?
Jesus – Eu sou o Caminho e a Vida. Ninguém vem ao pai senão por mim. Se me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis, o tendes visto.
Filipe – Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.
Jesus – Estou há tanto tempo convosco e ainda não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim, vê o Pai. E como dizes tu: “mostra-me o Pai?” Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim? Aquele que crê em mim, também fará as obras que eu faço e até maiores do que estas, porque vou para meu Pai. E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no filho. Se me amardes, guardareis meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, o Espírito da Verdade, que habitará sempre convosco.
(Profunda emoção se estampa nos semblantes dos discípulos. Alguns limpam as lagrimas)
Jesus – Não choreis. Não vos deixarei órfãos. Voltarei para vós. Aquele que cumpre os meus mandamentos, esse me ama e será amado de meu Pai; eu o amarei e me manifestarei a ele.
Tadeu – Como te manifestarás a nós e não ao mundo?
Jesus – Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará; e viremos nele fazer morada.
Os discípulos – Como, Senhor? Como se fará isso?
(Jesus levanta-se. Os discípulos também se levantam. Todos se calam. Os corações batem apressadamente. Que irá o Mestre fazer? A fisionomia de Jesus resplandece, transfigura-se. Um estranho estremecimento perpassa pelos discípulos. A palavra paralisa em todos os lábios).
Jesus (tomando o pão e partindo-o) – Tomai e comei, este é o meu corpo. Fazei isto em memória de mim. (Distribui o pão; os discípulos comem-no num silêncio grandioso. Jesus enche o cálice de vinho e passa-o aos discípulos) Tomai e bebei; este é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos para remissão dos pecados.
Pedro – Cantemos!
Os discípulos (em coro) Cantemos!
Jesus – Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens!
(Todos, de pé, cantam os salmos do “alel”. Ao fim de cada versículo vibram uníssonas as vozes: Aleluia! Aleluia!).
Jesus (ao terminarem os cânticos) – Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não vo-la dou como o Mundo a dá. Eu sou a videira verdadeira; meu Pai é o viticultor. Toda a vara em mim que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais. Estai em mim e eu estarei em vós. O meu mandamento é este: amai-vos uns aos outros. Amai-vos como eu vos amei. Ninguém tem mais amor do que aquele que dá a própria vida pelos seus amigos. Sereis meus amigos, se fordes amigos uns dos outros.
A Antiga Rude Cruz
(do inglês “The old rugged cross”)
Sobre o monte calvário, eu vi uma cruz.
Qual emblema de afronta e dor.
Mas eu amo essa cruz, pois morreu lá Jesus,
Em lugar do mais vil pecador.
Sim, eu amo a mensagem da cruz!
Seu triunfo meu gozo será,
E um dia em vez de uma cruz,
A coroa Jesus me dará.
Onde Cristo Jesus o Seu sangue verteu,
Formosura contemplo sem par.
Triunfante ali Ele a morte venceu
E meu ser pode santificar.
Sempre fiel eu serei à visão dessa cruz,
Seu desprezo também levarei.
E um dia feliz, com os santos na luz,
Sua glória eu sempre verei.
Essa cruz sem igual que o mortal desprezou
Para mim foi de grande atração.
E o Cordeiro de Deus, que a glória deixou,
Conquistou-me na cruz salvação.
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Pr. Jurandir Pereira Gomes