O Paradoxo da Prosperidade
Uma Reflexão Histórica Sobre o Paradoxo da Prosperidade
Por: Evandro Cardoso Nascimento
As Lições Bíblicas do 1º trimestre da Escola Dominical trazem como tema geral “A Verdadeira Prosperidade”, logo nas primeiras lições o conceito de prosperidade aparece relacionado a um todo de ordem espiritual, produzido pelo agir de Deus sobre o ser humano: “eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. (Jo. 10: 10.) Uma análise histórica deste conceito pode conduzir a uma compreensão mais ampla sobre a “verdadeira” prosperidade.
O conceito de prosperidade ganha inúmeros significados no tempo e no espaço, na literatura grega clássica, por exemplo, prosperidade está relacionada ao bem estar material (sofistas) ou ao bem estar cognitivo (platônico); já na literatura bíblica o conceito de prosperidade está extremamente ligado ao bem estar espiritual.
No medievo o conceito de prosperidade está intimamente relacionado à magnitude externa, expressa nas grandes ornamentações e na estratificação social, independente das condições materiais do indivíduo o que determina sua prosperidade é a condição nobre. Na modernidade o conceito de prosperidade é impulsionado pelas grandes mudanças ocorridas no período, os burgueses antes subalternos, agora recebem o título de prósperos empreendedores. Até mesmo no campo teológico o conceito de prosperidade sofre uma “capitalização” na filosofia calvinista, a mesma afirmava que os podres são amaldiçoados por Deus e os ricos assim o são porque foram predestinados por Ele.
Na contemporaneidade, o paradoxo da prosperidade ou da “verdadeira” prosperidade está associado à felicidade humana, felicidade esta que o ser humano procura desde tempos remotos. A diferença está em que tipo de felicidade o homem está procurando, existe a felicidade momentânea (emoção), e a felicidade contínua (disposição); estas conjunturas podem ser comparadas àquelas dos tempos bíblicos, onde o helenismo buscava a felicidade em Dionísio (deus da alegria e/ou felicidade), e o cristianismo buscava uma felicidade plena, conquistada pelo sofrimento de Cristo (bem aventurança). Assim como o termo felicidade é reinventado e reinterpretado no tempo histórico, o conceito de prosperidade também sofre tais modificações.
O consumismo da sociedade pós-fordista consiste na felicidade carpe diem (aproveite o momento), por exemplo: o carro do ano proporciona ao seu dono, uma felicidade que dura por exatos um ano, até o lançamento de um novo carro, isso ocorre em todos os setores de consumo, formando uma sociedade hiperconsumista e escrava de sua própria felicidade “quanto mais uma sociedade se enriquecesse, maior seria o consumo e as necessidades de consumir” (LIPOVETSKY, 2007, pg. 24). Na esteira do pensamento de Lipovetsky, a prosperidade ou enriquecimento está diretamente associado à felicidade carpe diem, logo àqueles que não possuem o poder de compra são infelizes.
Em contrapartida à felicidade carpe diem, encontramos no sermão de Cristo um versículo interessante: “Felizes os que choram” (Mt. 5: 4a), é possível chorar e ser feliz? Sim, pois considerando o choro uma emoção momentânea e a felicidade uma disposição contínua, tal felicidade é um conjunto de sensações positivas que produzem determinado controle emocional mesmo sobre situações adversas “porque eles serão consolados” (Mt. 5: 4b). Essa é uma felicidade chamada por Lipovetsky de “subjetividade insubstituível” condicionada pelo reconhecimento de determinados princípios intersubjetivamente construídos.
GONÇALVES, José. A Verdadeira Prosperidade: a vida cristã abundante. Lições Bíblicas (mestre), 1º trimestre de 2012. CPAD, Rio de Janeiro, 2012.
LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. Companhia das Letras, São Paulo, 2007.
MINHA VIDA. Você é Feliz?. Disponível em: www.minhavida.com.br Acesso em: Janeiro de 2012.
VINÍCIUS. Filosofia da Felicidade. Em torno do Mestre. FEB, 2012.
XENOFONTE. Ditos e feitos memoráveis de Sócrates. In: Sócrates, livro I, cap. VI, pp. 79-80 Os Pensadores, Nova Cultura, 1996.
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Evandro Cardoso do Nascimento.
Graduado em História e Pós-Graduado em Filosofia. Membro da Assembléia de Deus em Paranaguá, professor da EBD e da Rede Estadual de Ensino.
Evandro Cardoso do Nascimento.
Graduado em História e Pós-Graduado em Filosofia. Membro da Assembléia de Deus em Paranaguá, professor da EBD e da Rede Estadual de Ensino.
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